O encontro que mudou duas vidas
O livro começa na Alemanha Ocidental, em 1959. Priscilla tinhaatorze anos e havia se mudado para o país porque seu pai, um oficial da Força Aérea Americana, fora transferido para lá. Elvis, com 23 anos e já mundialmente famoso, cumpria o serviço militar. O primeiro encontro entre os dois é narrado com riqueza de detalhes — o que ele comia, como se comportava, se era tímido ou extrovertido — e o leitor é presenteado de imediato com um Elvis surpreendentemente humano, distante da imagem maior-que-a-vida que o tempo construiu ao redor dele. Um dos momentos mais marcantes da abertura do livro é o encontro de Elvis com o pai de Priscilla. O Sr. Beaulieu, sem se intimidar nem um pouco com a fama do cantor ou com a presença de Vernon Presley ao lado do filho, encarou Elvis diretamente: "Você é Elvis Presley, tem todas as mulheres do mundo a seus pés. Por que esse interesse por minha filha?". A tensão daquele momento e a forma como a educação de Elvis desarmou o pai de Priscilla dizem muito sobre o caráter do homem que a autora escolheu amar.Uma biografia honesta — e isso faz toda a diferença
O mercado editorial nunca foi gentil com a memória de Elvis. Ao longo dos anos, ex-assessores, ex-seguranças e oportunistas de toda sorte despejaram versões distorcidas, revanchistas ou simplesmente sensacionalistas sobre a vida do cantor. Elvis e Eu é o antídoto para tudo isso. Priscilla não escreve para defender uma imagem nem para destruir uma reputação. Ela escreve para contar a verdade — e a verdade, como ela mesma demonstra ao longo do livro, é sempre mais complexa e mais interessante do que qualquer versão simplificada. A obra aborda com igual peso os momentos de carinho e os de conflito: as traições que Priscilla suportou, os surtos de Elvis provocados pelo consumo abusivo de medicamentos, o relacionamento turbulento e, ao mesmo tempo, profundamente afetuoso que os dois mantiveram mesmo após a separação. Há um trecho do livro que resume bem essa complexidade. Ao refletir sobre o que Elvis representou em sua vida, Priscilla escreve: "Elvis ensinou-me tudo: como me vestir, como andar, como aplicar maquiagem e arrumar os cabelos, como me comportar, como retribuir o amor... à sua maneira. Ao longo dos anos, ele se tornou meu pai, marido e quase Deus." E logo adiante, após a morte dele: "Agora que ele estava morto, eu me sentia mais sozinha e com mais medo do que em qualquer outra ocasião de minha vida." Não é possível ler isso e não sentir o peso daquelas palavras.Além do casal: os bastidores de Graceland
Um dos grandes méritos do livro é que ele não se limita à relação entre Elvis e Priscilla. A obra abre janelas para aspectos da vida do cantor que raramente aparecem em outras publicações. A relação entre Elvis e sua mãe, Gladys, por exemplo, é descrita com uma intensidade quase sufocante. Os dois eram tão dependentes um do outro que, quando Elvis foi convocado para o Exército e precisaria passar um ano fora dos Estados Unidos, Gladys entrou em colapso. Priscilla revela que Elvis estava convicto de que a mãe havia, de alguma forma, renunciado à vontade de continuar vivendo — tamanha era a intensidade daquele vínculo. O livro também aborda a relação conturbada de Elvis com seu pai Vernon após a morte de Gladys, quando o cantor não aceitou que o pai iniciasse um novo relacionamento semanas depois do luto. E não deixa de explorar a figura do empresário "Coronel" Tom Parker, que comandava a carreira — e em boa medida a vida — de Elvis dentro e fora do palco.O declínio e a dor de testemunhá-lo
Os capítulos finais do livro são os mais difíceis de ler. Priscilla e Harmon descrevem com precisão dolorosa o estado em que Elvis se encontrava por volta de 1976, um ano antes de sua morte, em 16 de agosto de 1977. O rosto inchado, o corpo pesado, os esquecimentos das letras no palco, os shows adiados. Uma figura que havia redefinido a música popular do século XX se desfazendo diante dos olhos de quem o amava. É um retrato triste, mas necessário. E é justamente por não desviar o olhar desses momentos que Elvis e Eu se consolida como uma referência biográfica de primeira ordem.Vale a leitura?
Sem hesitação: sim. Seja você um fã de longa data ou alguém que simplesmente quer entender quem foi Elvis Presley para além dos mitos e dos hits, este livro entrega o que promete. Uma narrativa fluida, reveladora e, acima de tudo, humana. Como bônus, a edição traz um caderno de fotos com registros de diferentes momentos na vida do casal — um complemento visual que enriquece ainda mais a leitura. Elvis e Eu não é o livro de uma ex-esposa ressentida, nem o de uma admiradora acrítica. É o relato de uma mulher que esteve ao lado de um dos maiores artistas do século XX e teve a coragem de contar essa história como ela realmente foi.Adquira o livro pelo link abaixo e apoie este blog.
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