No artigo anterior contei como um velho notebook Acer acabou ganhando uma segunda vida e se transformando no servidor do meu homelab.

Mas existe outra história que começou antes disso: a da automação da minha casa.

Como acontece com muita gente, minha casa inteligente não nasceu de um grande projeto cuidadosamente planejado. Ela começou pequena, quase como uma brincadeira.

Minha primeira compra foi uma Alexa e uma lâmpada inteligente.

E minha automação residencial se resumia basicamente a:

— Alexa, acenda a luz.

— Alexa, apague a luz.

E eu achava aquilo fantástico!

Quando uma lâmpada deixou de ser suficiente

É claro que não demorou muito para eu começar a pensar:

"O que mais posso controlar?"

O próximo passo foi comprar um Controle Universal Smart Wi-Fi da Positivo Casa Inteligente.

Com ele consegui controlar pela Alexa equipamentos que utilizavam controle remoto infravermelho, principalmente a televisão.

A brincadeira começou a ficar mais interessante.

Depois vieram dois relés inteligentes Wi-Fi compatíveis com Tuya/Smart Life e Alexa. Instalei um deles no ventilador e o outro na bomba responsável por enviar água para a caixa-d'água.

Aos poucos, aquela única lâmpada inteligente começou a se transformar em uma verdadeira automação residencial.

Mas apareceu um problema que eu não havia considerado no início.

Cada dispositivo queria seu próprio aplicativo

Conforme novos equipamentos entravam em casa, novos aplicativos começaram a aparecer no celular.

Um dispositivo usava determinado aplicativo, outro dependia do Smart Life/Tuya, outro possuía seu próprio ecossistema e, no final, a Alexa acabava funcionando como uma espécie de ponto de encontro entre eles.

Funcionava, mas comecei a perceber que estava construindo uma casa inteligente extremamente dependente de serviços externos.

O comando podia sair da minha boca para um equipamento que estava a poucos metros de mim, mas, dependendo do dispositivo e da integração utilizada, parte desse processo poderia depender da internet e dos servidores do fabricante.

E comecei a pensar: por que minha casa precisa depender da internet para controlar equipamentos que estão dentro dela?

Se minha conexão cair, minha automação deveria continuar funcionando.

Se o fabricante decidir encerrar um serviço daqui a alguns anos, meus dispositivos não deveriam virar peso de papel.

E eu também não queria terminar com uma coleção de aplicativos no celular apenas para controlar minha própria casa.

Foi nesse momento que comecei a procurar uma solução mais local e centralizada.

Home Assistant resolveu uma parte do problema

Foi justamente essa busca que me levou ao Home Assistant.

A ideia era excelente: em vez de pensar na casa como uma coleção de dispositivos pertencentes a diferentes fabricantes, eu poderia reunir tudo em uma única plataforma.

Lâmpadas, interruptores, sensores, televisão, tomadas e automações poderiam ser administrados pelo Home Assistant.

Mas havia uma diferença importante que comecei a compreender.

Centralizar vários serviços de nuvem no Home Assistant é útil, mas não elimina necessariamente a dependência desses serviços.

Eu queria dar mais um passo.

Queria que, sempre que possível, a comunicação entre meus dispositivos e o servidor acontecesse dentro da minha própria casa.

Foi então que decidi investir em Zigbee.

Por que Zigbee?

Zigbee é um protocolo de comunicação sem fio desenvolvido especialmente para dispositivos de baixo consumo, sendo muito utilizado em sensores, lâmpadas, interruptores, tomadas e diversos outros equipamentos de automação residencial.

Uma das características que mais me interessaram foi justamente a possibilidade de trabalhar localmente.

Em uma instalação local com Home Assistant e dispositivos Zigbee, os comandos e automações não precisam depender da internet ou da nuvem do fabricante. Se minha internet cair, os dispositivos locais podem continuar funcionando normalmente.

Isso era exatamente o que eu procurava.

Outra característica interessante é que uma rede Zigbee pode funcionar como uma rede mesh.

Em termos simples, podemos imaginar uma rede Wi-Fi tradicional como várias pessoas tentando conversar diretamente com uma única pessoa no centro da sala. Em uma rede mesh, alguns participantes também podem ajudar a transmitir as mensagens adiante.

Dispositivos Zigbee permanentemente alimentados pela rede elétrica podem atuar como routers, ajudando a ampliar e fortalecer a rede. Já muitos sensores alimentados por bateria funcionam como dispositivos finais (end devices) e podem economizar energia permanecendo inativos durante boa parte do tempo.

Quanto mais comecei a estudar Zigbee, mais percebi que ele fazia sentido para aquilo que eu queria construir.

Mas faltava uma peça importante.

Toda rede Zigbee precisa de um coordenador

Os dispositivos Zigbee precisam formar sua própria rede e, para isso, existe um equipamento fundamental: o coordenador Zigbee.

Ele funciona como o ponto central da rede Zigbee.

É através dele que dispositivos como sensores, interruptores, lâmpadas e tomadas entram na rede e podem se comunicar com o sistema de automação.

Existem coordenadores USB bastante populares. Eles são conectados diretamente ao computador que executa o Home Assistant, Zigbee2MQTT ou outro software responsável pela rede Zigbee.

Mas eu queria algo um pouco diferente.

Depois de pesquisar as alternativas, escolhi o SMLIGHT SLZB-06P7.

Por que escolhi o SMLIGHT SLZB-06P7?

O SLZB-06P7 faz parte da família de coordenadores de rede da SMLIGHT.

Diferentemente dos tradicionais dongles Zigbee USB, uma das grandes vantagens dessa família é poder conectar o coordenador através da rede Ethernet.

Isso significa que ele não precisa necessariamente ficar fisicamente conectado ao computador onde está meu Home Assistant.

Essa característica me agradou bastante.

Meu Home Assistant está rodando em Docker dentro do meu servidor DietPi. Com um coordenador de rede, posso posicionar o rádio Zigbee em um local mais adequado da casa e deixar o servidor onde faz mais sentido para o restante do meu homelab.

Além disso, a série SLZB-06 oferece alimentação através de USB-C ou PoE (Power over Ethernet).

Com PoE, dados e alimentação podem passar pelo mesmo cabo Ethernet quando a infraestrutura utilizada é compatível.

Isso abre uma possibilidade muito interessante: colocar o coordenador em uma posição melhor para a cobertura Zigbee sem precisar ter uma tomada elétrica ao lado dele.

O SLZB-06P7 também não é simplesmente uma "caixinha que transforma Zigbee em Wi-Fi". Ele possui o rádio responsável pela rede Zigbee e disponibiliza diferentes formas de integração com o sistema de automação.

No meu caso, ele se tornou a ponte entre a rede Zigbee da casa e o restante do meu homelab.

Coordenador não é a mesma coisa que repetidor

Esse detalhe merece atenção porque eu mesmo precisei entender melhor como uma rede Zigbee funciona.

O coordenador é responsável pela criação e administração da rede Zigbee. Existe apenas um coordenador em cada rede.

Mas isso não significa que todos os dispositivos precisam conversar diretamente com ele.

Alguns dispositivos Zigbee ligados permanentemente à energia elétrica podem funcionar como routers Zigbee. Eles ajudam a retransmitir mensagens e ampliar a cobertura da rede.

É assim que a rede mesh vai sendo construída.

Por isso, montar uma boa rede Zigbee não significa simplesmente comprar um coordenador extremamente potente e colocá-lo no centro da casa. O posicionamento do coordenador, possíveis interferências e a existência de bons dispositivos routers distribuídos pela residência também fazem diferença.

Esse será um assunto para outro artigo.

Zigbee2MQTT: a próxima peça do quebra-cabeça

Comprar o coordenador resolveu a parte do hardware, mas eu ainda precisava decidir como meu servidor iria conversar com aquela rede.

Existem diferentes soluções para isso.

Uma delas é o ZHA (Zigbee Home Automation), que possui integração direta com o Home Assistant.

Eu, porém, escolhi outro caminho: Zigbee2MQTT.

E essa escolha combina bastante com a filosofia que comecei a adotar para o meu homelab: separar os serviços sempre que isso trouxer alguma vantagem.

Em vez de deixar toda a administração da rede Zigbee diretamente dentro do Home Assistant, mantenho o Zigbee2MQTT como um serviço independente.

E entre ele e o restante do sistema entra outro velho conhecido do mundo da IoT: MQTT.

No meu caso, utilizo o Mosquitto como broker MQTT.

Assim começamos a formar a arquitetura que utilizo hoje:

Dispositivos Zigbee
        │
        ▼
SMLIGHT SLZB-06P7
        │
        ▼
   Zigbee2MQTT
        │
        ▼
     Mosquitto
        │
        ▼
 Home Assistant

Pode parecer muita coisa quando vemos pela primeira vez.

Mas cada peça possui uma função específica.

E uma das coisas que mais gosto nessa arquitetura é justamente poder entender e controlar cada uma delas.

E a Alexa? Foi aposentada?

Não!

Continuo gostando muito da Alexa.

O que mudou foi o papel dela dentro da minha casa.

No começo, a Alexa praticamente era minha automação residencial.

Hoje prefiro pensar nela principalmente como uma das interfaces através das quais posso conversar com minha casa.

Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a arquitetura.

Minha intenção é que a inteligência e as automações importantes estejam, sempre que possível, dentro da minha própria infraestrutura. Alexa, celular, dashboards e outros dispositivos passam a ser maneiras diferentes de interagir com ela.

Assim, minha casa deixa de ser uma coleção de produtos inteligentes e começa a funcionar como um sistema.

Minha regra para comprar novos dispositivos mudou

Depois dessa experiência, passei a olhar de maneira diferente para qualquer dispositivo de automação que penso em comprar.

Hoje não observo apenas preço, aparência ou se existe na caixa aquele conhecido:

"Compatível com Alexa e Google Assistant".

Antes de comprar, quero saber:

Funciona localmente?

É compatível com Home Assistant?

Utiliza Zigbee ou outro protocolo que me permita controle local?

Preciso instalar mais um aplicativo?

Depende obrigatoriamente da nuvem do fabricante?

Se a internet cair, ele continua funcionando?

Isso não significa que nunca mais comprarei um dispositivo Wi-Fi ou dependente de algum serviço externo.

Significa apenas que agora sei o que estou colocando dentro da minha casa e quais serão as consequências daquela escolha.

A diferença entre comprar simplesmente um produto inteligente e projetar uma casa inteligente está justamente aí.

No próximo artigo vou mostrar como coloquei essa ideia em prática: a instalação do Zigbee2MQTT, a configuração do SMLIGHT SLZB-06P7 e a integração com o Mosquitto e o Home Assistant.

Foi quando aqueles primeiros comandos — "Alexa, acenda a luz" e "Alexa, apague a luz" — começaram a dar lugar a automações que realmente fazem a casa trabalhar sozinha.