Nos artigos anteriores contei como transformei um velho notebook em meu servidor doméstico e como minha automação residencial evoluiu de uma Alexa e uma lâmpada Wi-Fi para uma infraestrutura baseada em Home Assistant, Zigbee, Zigbee2MQTT e outros serviços locais.

Mas deixei uma peça importante dessa história para explicar com mais calma.

O Home Assistant.

Se você está começando agora no mundo da automação residencial, provavelmente já encontrou esse nome em algum vídeo, fórum ou tutorial. E talvez tenha ficado com a mesma dúvida que muita gente tem no início:

Afinal, o Home Assistant é um aplicativo? Um sistema operacional? Um servidor? Uma alternativa à Alexa?

A resposta curta seria: ele pode participar de tudo isso, mas sua proposta é um pouco diferente.

O que é o Home Assistant?

O Home Assistant é uma plataforma de automação residencial de código aberto criada para integrar dispositivos, serviços e tecnologias diferentes em um único ambiente.

Pense na quantidade de equipamentos que podemos ter em uma casa inteligente.

Uma lâmpada pode utilizar Tuya. A televisão é Samsung. Uma tomada utiliza outro fabricante. Os sensores são Zigbee. A Alexa recebe comandos de voz. O celular possui sensores próprios. Talvez existam câmeras, aparelhos de ar-condicionado, medidores de energia e dezenas de outros equipamentos.

Individualmente, cada fabricante tenta transformar seu aplicativo no centro da sua casa.

O Home Assistant propõe justamente o contrário:

a casa deve ser o centro.

Em vez de organizar sua automação de acordo com os fabricantes, podemos reunir dispositivos de diferentes marcas e tecnologias em uma única plataforma.

Foi exatamente isso que me atraiu.

Mais do que um controle remoto

Existe uma diferença importante entre controlar dispositivos e automatizar uma casa.

Imagine que eu tenha uma lâmpada inteligente.

Abrir um aplicativo no celular e tocar em um botão para acendê-la é certamente mais moderno do que apertar um interruptor na parede.

Mas continuo executando manualmente uma ação.

Até mesmo dizer:

"Alexa, acenda a luz."

continua sendo um comando.

Uma verdadeira automação começa quando a casa consegue tomar determinadas decisões a partir das condições que definimos.

Por exemplo:

SE houver alguém no quarto
E estiver escuro
ENTÃO acenda a luz.

Depois:

SE não houver mais ninguém no quarto
ENTÃO apague a luz.

Agora ninguém precisou abrir um aplicativo, tocar em um botão ou falar com um assistente virtual.

A casa simplesmente fez aquilo que deveria fazer.

É aqui que o Home Assistant começa a mostrar sua verdadeira utilidade.

Entidades: a linguagem do Home Assistant

Quando adicionamos equipamentos ao Home Assistant, começamos a encontrar frequentemente uma palavra: entidade.

Uma entidade representa alguma informação ou função disponível no sistema.

Uma lâmpada pode aparecer como:

light.luz_da_sala

Um sensor de presença:

binary_sensor.presenca_da_sala

Uma temperatura:

sensor.temperatura_da_sala

Um interruptor:

switch.ventilador

Podemos imaginar as entidades como as peças de Lego da nossa automação.

O Home Assistant reúne essas peças e permite combiná-las.

O sensor detecta alguém, a automação verifica a luminosidade e, se determinadas condições forem atendidas, liga a lâmpada.

E essas peças não precisam necessariamente ser do mesmo fabricante.

Essa é uma das grandes vantagens do Home Assistant.

Integrações: fazendo equipamentos diferentes conversarem

Para entender como isso funciona, precisamos conhecer outro conceito importante: as integrações.

São elas que permitem ao Home Assistant conversar com equipamentos e serviços diferentes.

Existem integrações para televisores, lâmpadas, tomadas, sensores, sistemas de climatização, serviços meteorológicos, servidores de mídia, protocolos de automação e uma enorme quantidade de outros equipamentos e plataformas.

No meu próprio homelab, por exemplo, o Home Assistant não está sozinho.

Tenho Zigbee2MQTT, Mosquitto e outros serviços desempenhando funções específicas. O Home Assistant reúne as informações necessárias e permite utilizá-las em dashboards, scripts, cenas e automações.

Isso nos leva a uma característica que considero particularmente importante.

Local primeiro

Uma das ideias centrais do Home Assistant é priorizar o controle local sempre que a tecnologia utilizada permitir.

Isso significa que, em vez de obrigatoriamente enviar um comando para algum servidor do outro lado da internet e esperar que ele volte para um equipamento que está dentro da sua própria casa, muitas integrações podem funcionar diretamente pela rede local.

Isso traz vantagens interessantes:

  • menor dependência da internet;

  • respostas potencialmente mais rápidas;

  • maior controle sobre a infraestrutura;

  • possibilidade de manter muitas automações funcionando mesmo quando a internet cai;

  • menor dependência da continuidade dos serviços de determinado fabricante.

É importante não confundir as coisas: instalar Home Assistant não transforma automaticamente todos os seus dispositivos em equipamentos locais.

Se determinado produto depende obrigatoriamente da nuvem do fabricante, essa dependência pode continuar existindo mesmo quando ele está integrado ao Home Assistant.

Por isso, como expliquei no artigo anterior, comecei também a mudar meus critérios na hora de comprar novos dispositivos.

Onde instalar o Home Assistant?

Aqui aparece uma das primeiras dúvidas de quem está começando.

Preciso comprar um equipamento específico para utilizar Home Assistant?

Não necessariamente.

Podemos reaproveitar computadores, utilizar mini PCs, Raspberry Pi, máquinas virtuais ou comprar equipamentos desenvolvidos especificamente para ele, como o Home Assistant Green.

Mas existe uma decisão ainda mais importante:

qual tipo de instalação utilizar?

E aqui precisamos tomar cuidado com muitos tutoriais disponíveis na internet.

Durante bastante tempo existiram quatro métodos bastante conhecidos: Home Assistant OS, Container, Core e Supervised.

Isso mudou.

Atualmente existem dois tipos de instalação oficialmente suportados:

  • Home Assistant Operating System (Home Assistant OS)

  • Home Assistant Container

Home Assistant Core como instalação independente e Home Assistant Supervised foram descontinuados como métodos de produção suportados.

Portanto, se você encontrar um tutorial ensinando a escolher entre quatro métodos, provavelmente está diante de conteúdo antigo.

Vamos entender as duas opções atuais.

Home Assistant OS: a opção recomendada para a maioria

O Home Assistant Operating System, normalmente chamado simplesmente de Home Assistant OS ou HAOS, é atualmente a instalação recomendada pelo próprio projeto para a maioria dos usuários.

E existe uma boa razão para isso.

Não estamos instalando apenas o Home Assistant sobre uma distribuição Linux comum. O HAOS é um sistema operacional mínimo desenvolvido especificamente para executar o ecossistema Home Assistant.

Ele inclui os componentes necessários para administrar a plataforma e oferece uma experiência bastante integrada.

Podemos imaginar sua estrutura, de maneira simplificada, assim:

Hardware
   │
   ▼
Home Assistant OS
   │
   ├── Home Assistant
   ├── Supervisor
   └── Apps

O Supervisor é responsável por boa parte dessa experiência integrada, ajudando a administrar atualizações e outros componentes do sistema.

E existe ainda uma diferença muito importante: Apps.

Se você já utilizou Home Assistant há algum tempo, provavelmente conhece o antigo nome add-ons. A terminologia atual da documentação utiliza Apps.

São softwares adicionais que podem ser instalados e administrados dentro do ecossistema Home Assistant OS.

É possível, por exemplo, acrescentar determinados serviços sem precisar administrar manualmente toda a infraestrutura de containers que existe por trás deles.

Vantagens do Home Assistant OS

Para quem está começando, são muitas:

  • instalação bastante integrada;

  • atualizações simplificadas;

  • Supervisor incluído;

  • suporte a Apps;

  • gerenciamento através da própria interface;

  • sistema operacional desenvolvido especificamente para o Home Assistant;

  • menos componentes externos para o usuário administrar;

  • experiência oficial recomendada para a maioria dos usuários.

Existe ainda uma vantagem importante:

Home Assistant OS não precisa necessariamente ocupar uma máquina física inteira.

Ele também pode funcionar dentro de uma máquina virtual.

Voltaremos a isso daqui a pouco.

E as desvantagens?

A principal desvantagem depende justamente do que você pretende fazer com aquela máquina.

Home Assistant OS foi desenvolvido para transformar o equipamento em uma plataforma Home Assistant.

Se você quer simplesmente montar sua casa inteligente, isso provavelmente é exatamente o que procura.

Mas eu queria outra coisa.

Eu estava construindo um homelab.

Meu servidor não serviria apenas para automação residencial.

Queria executar Jellyfin, AdGuard Home, FreshRSS, Stirling PDF e diversos outros serviços. Queria escolher quais aplicações rodariam diretamente no DietPi, quais utilizariam Docker e como organizaria meus próprios diretórios, volumes e backups.

Por isso, apesar de o HAOS ser a recomendação oficial para a maioria dos usuários, ele não era a opção que melhor combinava com o meu projeto.

Home Assistant Container: foi a minha escolha

A segunda opção oficialmente suportada é o Home Assistant Container.

E foi justamente a que escolhi.

Aqui a responsabilidade muda de lugar.

Em vez de o Home Assistant fornecer e administrar o sistema operacional, eu forneço e administro o sistema.

No meu caso:

Acer E5-571
     │
     ▼
   DietPi
     │
     ▼
   Docker
     │
     ▼
Home Assistant Container

Eu cuido do DietPi.

Eu cuido do Docker.

Eu decido como organizar os volumes.

Eu decido como fazer os backups do servidor.

Eu decido quais outros containers serão executados.

O Home Assistant é uma aplicação extremamente importante dentro da máquina, mas não controla o servidor inteiro.

Essa diferença resume muito bem a filosofia das duas instalações.

No Home Assistant OS, o Home Assistant administra o ambiente para você.

No Container, você administra o ambiente onde o Home Assistant será executado.

As vantagens do Container

Para meu projeto, essa arquitetura trouxe várias vantagens:

  • posso utilizar o DietPi como sistema operacional principal;

  • tenho controle completo sobre o host;

  • posso utilizar Docker Compose;

  • posso organizar meus próprios volumes;

  • posso executar outros containers independentemente;

  • posso escolher quais serviços ficam em Docker e quais ficam instalados diretamente no sistema;

  • posso migrar individualmente cada serviço no futuro.

Isso combina perfeitamente com um homelab.

Mas existe um preço por essa liberdade.

O que perdemos utilizando Container?

Essa é uma diferença que precisa ficar muito clara para quem está escolhendo.

Home Assistant Container não possui Supervisor nem suporte aos Apps do Home Assistant OS.

Isso não significa que eu não possa utilizar programas como Mosquitto ou Zigbee2MQTT.

Posso.

A diferença é quem será responsável por instalá-los e administrá-los.

Em Home Assistant OS, determinados serviços podem ser instalados como Apps e administrados através do ecossistema do Home Assistant.

Na minha infraestrutura, posso executar:

Docker
 │
 ├── Home Assistant
 │
 ├── Zigbee2MQTT
 │
 └── outros containers

E também posso manter determinados serviços diretamente no sistema operacional.

No meu caso, por exemplo, o Mosquitto está instalado nativamente no DietPi, enquanto Home Assistant e Zigbee2MQTT são administrados separadamente.

Isso me dá bastante liberdade.

Mas significa que sou eu quem precisa entender como essas peças conversam.

Para mim, isso faz parte da diversão de manter um homelab.

Para alguém que simplesmente quer automatizar sua casa sem administrar Linux e Docker, provavelmente seria trabalho desnecessário.

E a máquina virtual?

Aqui existe uma confusão bastante comum.

Executar Home Assistant dentro de uma máquina virtual não constitui um terceiro tipo de instalação.

Normalmente o que fazemos é executar Home Assistant OS dentro da máquina virtual.

Por exemplo:

Servidor
   │
   ▼
Hipervisor
   │
   ├── Outros serviços ou VMs
   │
   └── Máquina Virtual
          │
          ▼
   Home Assistant OS

Dentro daquela VM continuamos tendo a experiência completa do Home Assistant OS, incluindo Supervisor e Apps.

Essa é uma alternativa extremamente interessante para quem possui um servidor de virtualização.

Podemos ter a conveniência do HAOS sem necessariamente dedicar todo o computador físico exclusivamente a ele.

Por outro lado, acrescentamos a camada da virtualização, que também precisa ser administrada.

No meu Acer, preferi uma arquitetura mais direta:

DietPi → Docker → Home Assistant

Mas dependendo do hardware e do objetivo do homelab, eu consideraria perfeitamente utilizar Home Assistant OS em uma VM.

E Home Assistant Core e Supervised?

Este ponto merece uma explicação porque você certamente encontrará esses nomes pesquisando na internet.

Durante anos existiram também:

Home Assistant Core — instalação do Home Assistant diretamente em um ambiente Python.

Home Assistant Supervised — permitia instalar o Supervisor sobre um sistema operacional administrado pelo próprio usuário.

Em 2025, o projeto anunciou oficialmente a descontinuação desses dois métodos de instalação.

A partir do ciclo de lançamento 2025.12, eles deixaram de ser métodos oficialmente suportados.

Isso não significa que o Home Assistant Core deixou de existir como software.

Na verdade, Core continua sendo o programa que está no coração do Home Assistant. O que deixou de ser suportado para uso em produção foi o antigo método de instalação Home Assistant Core, no qual o usuário executava diretamente o programa Python em seu próprio ambiente virtual.

Essa distinção é importante.

Se encontrar um tutorial antigo dizendo:

"Escolha entre OS, Container, Supervised ou Core."

saiba que essa classificação está desatualizada.

Hoje a decisão oficial é muito mais simples:

             Como instalar?
                   │
          ┌────────┴────────┐
          ▼                 ▼
Home Assistant OS      HA Container
          │                 │
 Mais integrado        Mais controle
          │                 │
 Menos administração   Você administra

Então, qual devo escolher?

Depois de entender essas diferenças, eu faria uma recomendação bem simples.

Se você está começando agora e quer montar uma casa inteligente, sem interesse particular em administrar Linux, Docker e toda uma infraestrutura de servidor:

Home Assistant OS.

É a opção recomendada oficialmente e provavelmente será o caminho mais tranquilo.

Se você já possui um servidor Linux, utiliza Docker e quer que Home Assistant seja apenas uma das aplicações de sua infraestrutura:

Home Assistant Container.

Foi exatamente o meu caso.

E existe ainda aquela terceira situação prática: você possui um servidor de virtualização e quer a experiência completa do Home Assistant OS sem dedicar todo o hardware físico a ele.

Nesse caso: Home Assistant OS dentro de uma máquina virtual. Continua sendo HAOS, apenas virtualizado.

Uma comparação rápida

CaracterísticaHome Assistant OSHome Assistant Container
Oficialmente suportadoSimSim
Recomendado para a maioriaSimPara cenários específicos
Sistema operacional incluídoSimNão
SupervisorSimNão
AppsSimNão
Atualizações integradasSimHA sim; host/container sob sua responsabilidade
Controle do sistema hospedeiroLimitado ao propósito do HAOSTotal
Precisa administrar DockerNãoSim
Bom para iniciantesExcelenteExige mais conhecimento
Bom para homelab Docker existentePossível via VMExcelente

Nenhuma das duas opções executa um Home Assistant "melhor".

O software de automação é essencialmente o mesmo.

O que muda é quem administra tudo aquilo que existe ao redor dele.

E foi justamente essa pergunta que determinou minha escolha.

Por que continuei com Docker?

Meu Acer não nasceu para ser apenas uma central de automação.

Ele se transformou em um servidor doméstico.

Hoje minha arquitetura se parece muito mais com isto:

                     Acer E5-571
                          │
                        DietPi
                          │
             ┌────────────┴────────────┐
             │                         │
      Serviços nativos              Docker
             │                         │
      ┌──────┴──────┐        ┌────────┼─────────┐
      │             │        │        │         │
  Mosquitto      outros      HA   Zigbee2MQTT  outros

O Home Assistant é o centro da automação da minha casa.

Mas ele não é o centro administrativo do meu servidor.

Essa pequena diferença explica boa parte das decisões que tomei na construção do meu homelab.

Não comece comprando tudo

Depois de algum tempo brincando com automação residencial, talvez essa seja uma das dicas que considero mais importantes para quem está começando.

Não compre vinte sensores, dez lâmpadas e cinco tomadas inteligentes antes de entender como pretende montar sua casa.

Comece pequeno.

Uma lâmpada.

Um sensor.

Uma tomada.

Instale o Home Assistant, aprenda o conceito de dispositivos e entidades, crie seu primeiro dashboard e faça uma automação simples.

Por exemplo:

Presença detectada
        +
 Ambiente escuro
        │
        ▼
 Acender lâmpada

Depois faça o contrário:

Sem presença
     │
     ▼
Apagar lâmpada

Quando isso estiver funcionando, acrescente outra coisa.

Foi justamente começando pequeno que consegui perceber o que realmente queria da minha automação.

A casa inteligente começa a tomar forma

Minha primeira experiência de automação era dizer:

"Alexa, acenda a luz."

Aquilo me impressionou — e ainda acho comandos de voz extremamente úteis.

Mas hoje vejo a automação residencial de uma maneira um pouco diferente.

O objetivo não é eliminar botões, aplicativos ou comandos de voz.

É fazer com que eles deixem de ser a única maneira de controlar a casa.

Uma boa automação deve conseguir perceber determinadas situações e agir quando necessário, sem impedir que eu continue tendo controle manual quando quiser.

É aí que o Home Assistant se torna especialmente interessante.

Ele não precisa substituir Alexa, Zigbee, MQTT, interruptores físicos ou os aplicativos que ainda sejam necessários.

Ele pode ser justamente o lugar onde tudo isso se encontra.

E foi assim que, aos poucos, minha coleção de dispositivos inteligentes começou a se transformar em uma casa inteligente.

No próximo artigo vamos colocar a mão na massa. Vou mostrar como instalei o Home Assistant Container com Docker Compose no meu servidor DietPi, como organizei seus arquivos e dados persistentes e quais foram minhas primeiras configurações depois de acessar a interface pela primeira vez.